Meus alunos, a terapia





Enquanto a vida não me dá a oportunidade de alçar vôos mais altos, a vida parece seguir, aparentemente calma. Tenho que ter forças para ser a sustentação, minha namorada Carla nem sempre consegue, ela também tem os seus conflitos, nada pequenos, como os meus. Talvez por isso consigamos viver tão bem, mesmo diante de tantas adversidades, apoiamo-nos sempre e entemos nossos martírios meio que gêmeos, e assim vamos indo, como Herbert Vianna "o sol da manhã vem e nos desafia". É difícil saber para quem a barra é mais pesada, talvez eu tenha o agravante do distúrbio bipolar, talvez para mim seja mais difícil concatenar as coisas, mas quem sabe o que permeia os nossos pensamentos?

Lecionar tem sido uma coisa muito boa para resistir à hecatombe que se transformou a minha vida. Acho que todos deveriam experimentar um dia, é como num show, o resultado da atuação está ali, basta olhar para os olhos do público. O interessante é observar que tudo continua, que as gerações chegam com os mesmos sonhos meus de anos atrás, que os adolescentes e as crianças ainda têm esperança no mundo, apesar de tudo. Ouvi-los falar, de suas aspirações para o futuro, faz-me pensar de minhas próprias, hoje são muitas, antes tudo se resumia em arrumar um jeito de sair daqui. É uma renovação, estar em contato com essas criaturinhas, ouvi-los e imaginar que eles estão aqui, indo e vindo, crescendo e planejando o que eu já planejei. Um retorno à esperança, uma espécie de "nem tudo está totalmente perdido".

Lecionar Literatura Brasileira então... é próximo de tudo que eu gosto, de tudo para o qual me apliquei por tanto tempo. Tenho três turmas de Supletivo, uma em especial, que á a última fase. Ontem um dos alunos, ao fim da aula, olhou-me e disse que adorou a aula, que me achou simpática. Que presente imenso, nenhum dinheiro paga esse sentimento. Aí eu pego o telefone e ligo para a Carla, imediatamente, para contar que tudo está indo bem, que a receptividade dos pimpolhos melhora a cada dia... Acho que as coisas vão caminhando, devagar, até o próximo degrau. Para quem está acostumada às quedas, e não só no que se refere ao humor, acaba sendo comum esse vai-e-vem... quem sabe a graça da vida esteja aí, nessa inconstância que eu considero tão incômoda...



Bipolarmente deixado por Estela Carvalho às 10h12
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Quem não tem

teto de vidro

que atire

a primeira

pedra!







Estela/inquietude.Tenho 30 anos, moro no Rio de Janeiro, sou professora de Literatura Brasileira, amo a Língua Portuguesa. Ainda não descobri porque estou no mundo, pouco acredito, tudo questiono. Desisto da vida muito rápido, sempre que ela dói. Tenho muitas limitações, e quero ser o melhor possível. Não consigo compreender a crueldade das pessoas. Minhas paixões não têm medida. Abomino grades, necessito criar.



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