De volta à emergência da Saint Roman,
infelizmente

 
 

Depois de alguns dias enfiada dentro de casa e chorando, em depressão acima do normal, vi que não tinha mais jeito, hoje teria que ir à Saint Roman, clínica psiquiátrica onde faço meu tratamento. Na verdade eu iria passar no Pronto Atendimento, na Emergência, porque eu não havia sequer marcado a tal consulta com o meu psiquiatra novo, o Dr. Willian, ainda aquela relutância própria de quem acaba de ficar órfã do Dr. Marco André, e também porque do jeito que eu estava, não dava para continuar. Sei que eu deveria, deveria, deveria, deveria... ser forte e evitar os remédios, mas até para ser forte há um limite, não dá para fechar os olhinhos e imaginar que a tristeza vai embora sozinha como num passe de mágica, sem medicamento. Fico triste toda vez que eu tenho que voltar à Saint Roman no Pronto Atendimento, isso parece um mau sinal, de que as coisas não estão tão estabilizadas quanto eu queria que estivessem... talvez não estejam, ou talvez essas quedas façam parte do processo, prefiro acreditar na segunda sentença.

Fui ao ambulatório para marcar consulta com o Dr. Willian e, lá estava ele na recepção. Vi que era ele porque li em seu crachá, e também porque o Marco disse-me que eles, os dois, eram surpreendentemente parecidos, no físico, e são mesmo.  A Sônia, sempre amável, perguntou-me se eu ia ao Pronto, eu disse que sim, ela disse que o Dr. Willian tinha tido uma desistência de um paciente, justo naquele horário, e conversou com ele para me atender em consulta normal, o que ele acatou, para minha alegria. Melhor falar com ele, que é meu médico, que com um Psiquiatra do Pronto Atendimento, que eu nem sei quem seria. E lá fomos nós então, para uma consulta emergencial, fora de planejamento, mas com prontuário, com médico novo, sala nova e com as minhas lamúrias de sempre.

Claro que eu não tive com ele aquela mesma conversa que eu tinha com o Marco, nem poderia ser, porque mal o conheço, nem ele a mim, mas até que foi agradável. Ele também é engraçado e piadista, rimos um bocado, contei algumas coisas do meu tratamento, de como ele ia indo, e ele parecia já bastante inteirado do meu caso, isso é coisa do Marco, com certeza, que deve ter conversado com ele sobre mim. Ele viu a necessidade de voltarmos ao antidepressivo, dadas as minhas últimas crises, o que eu achei prudente. Entretanto, o bipolar, ser complexo que ele só, tem o problema da tal virada de mania, que eu sei muito bem o que é e já passei por isso outras vezes, tentarei explicar: eu faço uso de Estabilizador de Humor, o Carbolítio CR 450. Ele permite que o meu humor fique estável entre as fases de depressão e euforia. Com a ingestão concomitante de um antidepressivo, ele me transcreveu a paroxetina (Celebrin), corre-se o risco da tristeza causada pela depressão não só desaparecer por completo, como também transformar-se num estado de bem-estar além do comum, o que me levaria para o outro pólo! Sim, o antidepressivo pode me jogar direto para uma crise de mania, essa é a tal virada de mania.

Por custa da possibilidade de acontecer a virada de mania, semana que vem eu terei que ir ver o Dr. Willian de novo, e assim será durante algumas semanas, até que eu me livre dessa depressão e possa voltar a usar o Lítio somente. E tenho que fazer, obrigatoriamente, o controle da Litemia no sangue. O Dr. Willian deu-me um outro esporro, disse que eu estou brincando com o Lítio... tá, eu sei que é sério, que o Lítio é super hiper tóxico, aliás, eu acho que ele desconfia que o Lítio esteja me fazendo estar assim, no descontrole. O jeito é fazer o tal jejum de 12 horas e amanhã tirar sangue para ver como anda a consentração da substância... Deus queira que esteja tudo bem. E semana que vem, Saint Roman de novo! Nada de passar mais pela crise horrorosa que eu tive ontem, em que só não chorei mais porque adormeci de cansaço, de dor de cabeça, tendo amanhecido com os olhos inflamados de tão inchados... Não mereço viver assim... não aceito! Se há tratamento, eu quero todos os tratamentos do mundo. Tudo que eu queria era me livrar de tudo isso mas... como as coisas com a mente não são tão simples assim, que eu consiga ao menos viver, da melhor maneira possível.



Bipolarmente deixado por Estela Carvalho às 19h59
[ ] [ espalhe esta mensagem ]






 

A   p r i s ã o   d a   m e n t e

 

 

Não há prisão mais cerrada e confinamento mais dolorido que aquele proporcionado por nossa própria mente. Às vezes me ponho a pensar que este meu estado de consciência quase recobrada é tão triste quanto  estar afundada num daqueles meus processos depressivos. Quando se está deprimido, ao menos, a dor ocupa todos os espaços e pouco sobra para perceber a crueldade do mundo em que vivemos, já que passamos a observar exclusivamente o que se passa dentro de nós. E o nosso mundo de angústias, de sofrimento, de medo... começa a parecer menor que as dificuldades aqui fora.

Incrivelmente solitário é o destino de quem está aprisionado em suas próprias dores. As outras pessoas, em definitivo, não estão prontas para ouvir, nem para oferecer aquela palavra amiga quando dela precisamos. E de tanto falar com as paredes, com quem não se preocupa ou simplesmente não compreende, chegamos a uma situação limite, na qual nos recusamos a falar com quem quer que seja. Neste ponto a prisão maior é instaurada, quando fechamos as portas para a comunicação com o mundo externo, onde passamos a contar exclusivamente conosco. Toda ajuda que poderia ser bem-vinda, por parte de outras pessoas, é sumariamente recusada por nós, numa atitude de defensiva propriamente dita.

Como fugir deste claustro? Onde encontrar quem nos ouça os gritos, uma conversa franca, sem fórmulas próprias do senso comum, sem julgamentos, apenas com um "você é capaz de sair desta", dito de forma sincera? E se não encontrarmos nada disso, em parte alguma? Quem há de nos ajudar e defender de nós mesmos, de nossos próprios pensamentos incessantes e por vezes desconexos?

Muitas dúvidas para um só texto, possivelmente algumas sequer terão respostas. Se o mundo não está preparado para nos acolher, como pessoas com necessidades notadamente diferentes, não resta alternativa senão a de nos adequar ao mundo. Sim, a esse mundo que nos despreza. Buscar forças rumo à auto-suficiência, se é que ela existe, para não colocar nosso bem estar na dependência de ter que escutar palavras mágicas vindas de outras pessoas, e aprender a procurar, sozinhos, as respostas de nossos dilemas interiores. O famoso exército de um homem só... numa briga que é trabalho de Hércules, um por dia. Desconheço, por completo, a existência de uma prisão maior que a da dor, essa a qual os bipolares estão frequentemente sendo submetidos. Dentro de nós há um mundo que é ruína, e fora de nós, ninguém enxerga [e muitos tropeçam] em nossos pedaços que ficam pelo chão.

Vi, num blog, a imagem abaixo, e ela parece sintetizar o que eu experimento hoje. Que dificuldade é contar para as outras pessoas o que sentimos por dentro, e que dificuldade maior ainda ser compreendida por elas, estou realmente cansada disso. Minha porta com o exterior está entreaberta, espaço suficiente para passar essas letras que derramo por aqui, já que não encontro quem eu possa fazê-lo ao vivo e à cores. Aqui também me parece muito melhor, poupa-me da decepção de falar, falar, falar e não obter nada! Nenhuma palavrinha de apoio sequer. Aqui tenho leitores, em sua grande parte que sabem exatamente do que eu estou falando [escrevendo]. Que bom. Nem tudo parece tão perdido assim como eu supunha que estivesse...



Bipolarmente deixado por Estela Carvalho às 21h38
[ ] [ espalhe esta mensagem ]






[ ver anteriores ]
 




Quem não tem

teto de vidro

que atire

a primeira

pedra!







Estela/inquietude.Tenho 30 anos, moro no Rio de Janeiro, sou professora de Literatura Brasileira, amo a Língua Portuguesa. Ainda não descobri porque estou no mundo, pouco acredito, tudo questiono. Desisto da vida muito rápido, sempre que ela dói. Tenho muitas limitações, e quero ser o melhor possível. Não consigo compreender a crueldade das pessoas. Minhas paixões não têm medida. Abomino grades, necessito criar.



Outros posts

3 Ver anteriores



Outras palavras

3 Doce Fel
3 Bipolar, eu?
3 Alice Carrol
3 Amar é viver
3 Dançar a vida
3 Bipolaridade
3 Blog do Tulim
3 Cabeza marginal
3 Debbie Drechsler
3 Blog da Marcinha
3 Mente Apaixonada
3 Matem-me, por favor
3 Império dos sentidos
3 Pensamentos bizarros
3 Olhando a vida de frente





Onde encontrar ajuda:

Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro - CPRJ
Rua Coronel Assunção, s/n - Saúde Rio de Janeiro Tel.: 2516.5504 (atendimento gratuito)

Casa de Saúde Saint Roman
Rua Almirante Alexandrino, 1342 Santa Teresa - Rio de Janeiro Tel.: 3861.8100 (atendimento convênios)




[fale comigo]











[eterna Santa Rita de Cássia,
rogai por nós!]