E que venham as mudanças!





Só hoje pude digerir essa história, o suficiente para contá-la aqui. Ontem fui ao consultório do Marco, como faço todos os meses, não tinha feito os exames de controle da litemia, normal, já sabia que ia ganhar um senhor esporro, mas era bom vê-lo novamente, afinal, ele estivera em férias no mês de novembro. Tentei adiantar minha consulta quando a Sônia, amável recepcionista da Saint Roman, me deu a triste notícia, que o Marco não mais faria parte do corpo médico da casa. Pensei na hora "eu vou para onde ele for", e com esse espírito, fui ontem à Saint Roman.

Outros pacientes do Marco saíam do consultório com aquela carinha de velório, e a minha cara não foi ficando diferente. Foram dois anos de cumplicidade, de amizade, de carinho, de cuidados, dois anos e não dois dias. O Marco é o responsável por toda a mudança que se operou em mim desde que eu cheguei, desesperada e em crise, à Saint Roman, a paciência que ele teve, o carinho, tudo me fez estar bem como eu estou, acho que dá para imaginar tudo o que eu devo a ele... devo minha melhora, devo meu retorno à vida normal, devo minha vida de volta. Devo tudo, totalmente. Entrei no consultório olhando tudo e procurando os detalhes da minha vida de descontrole, procurando nas paredes as lágrimas infinitas que eu chorei, lágrimas de quem era perdida na vida, procurando naquele espaço a história, vitoriosa, decerto, de quem sobreviveu ao caos da mente. O Marco nem me olhava nos olhos, disse um "tudo bem?" eu respondi que "tudo ótimo", ele disse que dava para ver que estava tudo ótimo, que eu estava com uma aparência muito boa.

Começamos a falar de sua saída, ele me disse que iria ficar somente com os atendimentos em seu consultório particular, porque a Saint Roman estava lhe roubando não só tempo e dinheiro, mas a saúde também. Dá para entender perfeitamente: ele atende cerca de 20 pessoas por dia, fora os plantões de 24 horas, na internação. Claro que isso não é qualidade de vida para ninguém, ainda mais para ele, recém-casado. Eu mais que ninguém sei que a vida não é só trabalhar, que existem muitas outras coisas a serem feitas por nós aqui. Os motivos eu entendi, qualquer um entenderia, mas o duro é ter que suportar o tratamento sem saber que vou chegar à Saint Roman e dar de cara com ele, o psiquiatra mais atencioso e engraçado do mundo. Com quem eu vou poder brincar, como eu brincava com ele? Agora vai demorar muito tempo para que eu volte a me sentir à vontade com alguém, como era com o Marco.

Ele "transferiu" meu caso para outro médico, que atenderá em seu lugar, o Dr. Willian. Segundo ele eu vou gostar muito, o Dr. Willian é muito parecido com ele, nas brincadeiras, no bom humor, no jeito mesmo. As pessoas da Saint Roman sempre perguntam se eles são irmãos, porque até fisicamente eles são parecidos. Pa-re-ci-dos... mas o Dr. Willian não é o Marco, e isso é fato, não vai ser a mesma coisa, não mesmo. Sei que com o tempo eu talvez me acostume com ele, até goste quem sabe, mas de início ele é, para mim, o médico que substituiu o meu médico, porque o Marco será para sempre meu psiquiatra oficial, e eu vou com quatro pedras nas mãos para o consultório, mês que vem. Fora o trabalhão de ter que contar minhas lamúrias tudo de novo, ninguém merece... O Dr. Willian tem um prontuário longo para ler, o meu, está em não sei quantas páginas, parece um livro, porque o Marco anotava até um espirro meu...rs... mas tem coisa que não está ali, tem muita coisa.

Achei engraçado o Marco perguntar se eu queria que ele falasse para o Dr. Willian que eu sou gay, pode? Dei risada na hora, e é claro que eu disse que não precisava falar nada, que isso eu falo para qualquer pessoa que me perguntar, não tenho vergonha nenhuma, tenho é muito orgulho. Ele riu e confessou, que mesmo após dois anos, ainda se chocava com as minhas colocações tão diretas e francas, com as coisas que eu contava das "meninas", que ele não me imaginava ao lado de uma mulher... risos... Eu disse "mas vc ainda se choca com isso, Marco?"... ele disse que sim, que sempre tomava um susto quando eu falava de namoradAs e não namoradOs, não que ele fosse preconceituoso, isso é claro que ele não é, mas que achava, diferente. Tudo bem, diferente é mesmo, eu entendo ele... risos... Mas acho que isso se deve a minha total falta de pudor nesse assunto, confesso que eu não tenho o menor problema em falar disso com qualquer pessoa que seja... daí as pessoas se assustam um pouco.

E é isso enfim... notícias não muito boas, na verdade. O fim do ano sempre nos reserva surpresas estranhas, algumas boas, outras não. Ganhei já um presente dos deuses, uma linda mulher para eu cuidar e amar, e perdi meu psiquiatra oficial. Acho que a vida é um perde-ganha mesmo, não dá para querer ter tudo assim... Depois eu me acostumo com a nova situação, com o Dr. Willian, e faço ele entrar "no meu ritmo"... risos... sim, porque para ser psiquiatra da Estela, haja paciência! Não deve ser nada fácil me aturar, o Marco que o diga. Se bem que ele parece que gostou muito. Tanto que ficou, como sempre, segurando as lágrimas para não chorar, porque psiquiatra não chora, não se descontrola, não dá vazão à emoção, em nome do profissionalismo. O que eu sei é que eu nunca poderia ser psiquiatra na minha vida, eu desconheço esse controle todo que ele tem, passo muito, muito longe disso! Sou emocional até os ossos... Bom, Marco André Mezzasalma, meu salvador... boa sorte em seu consultório, muitos clientes, muita saúde e amor! Da sua paciente estranha, homossexual declarada e atualmente muito próxima da cura, graças ao seu empenho e ao seu carinho...

Valeu Marco!!!!



Bipolarmente deixado por Estela Carvalho às 17h08
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Quem não tem

teto de vidro

que atire

a primeira

pedra!







Estela/inquietude.Tenho 30 anos, moro no Rio de Janeiro, sou professora de Literatura Brasileira, amo a Língua Portuguesa. Ainda não descobri porque estou no mundo, pouco acredito, tudo questiono. Desisto da vida muito rápido, sempre que ela dói. Tenho muitas limitações, e quero ser o melhor possível. Não consigo compreender a crueldade das pessoas. Minhas paixões não têm medida. Abomino grades, necessito criar.



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