Razões para DUVIDAR que eu
esteja num episódio de mania

Somos reconhecidamente bipolares. Ser bipolar, e interessar-se pelo próprio bem-estar faz com que desenvolvamos novos hábitos, talvez nem tanto para mim, porque já sou "metida a querer saber de tudo" desde muito pequena, mas para a maioria das pessoas que não têm costume de estudar e ler sobre as enfermidades. Nesta leitura, com olhos de quem sofre os dramas relatados, identificamos e entendemo-nos, com outra visão sobre nós mesmos e nossas ações: é quando nos tornamos detetives de nós mesmos. Passamos a vigiar nossos passos, observar atitudes, reações e estado, de uma maneira geral. Creio eu que essa auto-ajuda, nossa para conosco mesmo, é o nosso bem maior, é onde passamos a nos conhecer de maneira integral, ou pelo menos muito melhor que antes.
Ao indagar-me prontamente sobre esta minha nova fase, de tranqüilidade e paz interna, de entusiasmo e esperança, achei prudente tentar encontrar, na literatura específica, razões que me mostrassem se a minha alegria atual é uma alegria "normal", ou produto de uma nova fase maníaca. Esse limite, entre a alegria normal, a hipomania e a mania é uma linha tênue, muito mais para nós que não somos entendedores de Psiquiatria. Certamente os médicos sabem distingüir as três situações de maneira quase perfeita, mas nós, que damos meros pitacos, ainda temos uma dificuldade muito grande em identificar uma ou outra. Eu confesso que não sei diferenciar a "alegria normal da anormal", creio que isso se deva a fato, incontestável, de que estou no meio disso tudo, não estou olhando pelo lado de fora da situação, e que meus sentimentos jazem ainda confusos nesse sentido, apesar do meu estado atual ser bastante confortável. Somos atacados de forma tão pungente, em nossas atitudes, que futuramente passamos a desconhecer a normalidade, pela absoluta falta de contato com ela, daí geram-se as confusões.
No meu caso, tenho algumas razões para supor que eu não esteja sendo acometida por uma nova crise maníaca. Primeiro porque entendo-me literalmente diferente, por dentro, que quando em crise. De forma alguma eu teria essa tranquilidade até para analisar se estou ou não em episódio maníaco, porque na mania os pensamentos atropelam-se e sequer conseguimos frear nossos impulsos. "Estou" uma pessoa agradável, bem disposta, mas eu não diria que excessivamente alegre. Minha alegria atual é de um tipo comum, não tenho me sentido tentada a grandes realizações, como os maníacos geralmente sentem-se, e a aceleração é normal, ou seja, desempenho minhas atividades sem pressa e sem atropelos caóticos e hiperatividade. Não tenho começado muitas coisas ao mesmo tempo. Lembro que em episódio maníaco eu começava duas ou três blusas de crochê ao mesmo tempo, largando-as pelo meio em seguida.
Não tenho aquela sensação de onipotência que se apodera do maníaco: ele acha que tem que dar conta de tudo que começa e não termina, e é claro que não consegue, daí a idéia que se apossa, dele mesmo, de que não é capaz de realizar as coisas. Minha vida social tem transcorrido normalmente, falo com os amigos, não de maneira initerrupta e sem deixar-lhes colocar suas opiniões, voltei a escutar as pessoas... aceitar conselhos... e não achar que só eu sou a dona da verdade e o centro do universo. Meus pensamentos seguem de forma tranqüila, excetuando-se à noite, quando as preocupações me incomodam. Tenho dormido com dificuldade mas não tenho dormido pouco não, durmo o suficiente e acabo levantando mais tarde. Não tenho tido humor irritadiço, nem explosões como eu tinha anteriormente, por qualquer motivo. Hoje se eu me irrito é por uma causa realmente concreta e voltei a, mesmo quando contrariada, conversar, na medida do possível, antes de alterar meus ânimos.
Para que se considere que eu esteja passando, então, por um período hipomaníaco, haveriam que se observar os seguintes fatores:
"humor anormal e persistentemente elevado, expansivo ou irritável, com duração mínima de 4 dias. O período de humor anormal deve ser acompanhado por pelo menos três sintomas adicionais de uma lista que inclui auto-estima inflada ou grandiosidade (não-delirante), necessidade de sono diminuída, pressão da fala, fuga de idéias, distratibilidade, maior envolvimento em atividades dirigidas a objetivos ou agitação psicomotora, e envolvimento excessivo em atividades prazerosas com um alto potencial para conseqüências dolorosas" (http://www.psiqweb.med.br/dsm/humor2.html#hipomania)
É claramente observável, para mim, que não me enquadro em sequer um dos sintomas hipomaníacos [uma suposta mania de proporções mais brandas] e menos ainda nos sintomas maníacos, esses eu conheço bem de perto. Só me resta concluir que o meu tratamento está sendo efetivo! Assim disse o Dr. Marco, em minha última consulta. Confio plenamente nele? Sim, mas isso não vai me impedir de tentar descobrir, detetive que sou, "caçador de mim", lendo tudo que eu tiver pela frente para tentar encontrar uma resposta. Essa busca é maravilhosa, principalmente quando se descobre que está caminhando para outra realidade! E é maravilhosa também quando infelizmente descobrem-se os sintomas claramente expressos em nós, porque só descobrindo as coisas que sentimos é que poderemos partir para auxiliar no diagnóstico médico. E o médico não é onipotente... ele precisa de nossa ajuda. Saibamos ajudá-los, pois, para que eles nos ajudem! Com nossas dúvidas e com a exposição do que está dentro de nós. É preciso nos colocar para fora, se quisermos ajuda.
Bipolarmente deixado por Estela Carvalho às 19h18
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Feliz?
Que coisa mais estranha!

Realmente não sei descrever a sensação que tenho tido nos últimos dias. Assumo minha absoluta incapacidade de lidar com essa força de sentimentos, parece incrível que eu esteja me sentido assim, afinal, sou ou não sou uma bipolar? É como quando se aprende a andar, sofre um acidente e precisa de fisioterapia. Muito tempo sem me sentir assim me fez esquecer, talvez, o que é estar feliz. Muito tempo de tratamento psiquiátrico, longe, muito longe do que é se sentir normal... você acha que jamais poderá experimentar o que havia anteriormente. Pois eu digo, para os que não acreditam, que é possível recuperar-se, nem que seja parcialmente, numa espécie de fisioterapia mental.
Readaptação, essa é a palavra de ordem. Não é nada fácil se pegar no meio do caminho, de repente... sorrindo. Gargalhando de uma piada. Conversando normalmente com os amigos. Notar que os amigos já não perguntam mais sobre o seu tratamento. Assistir tv com calma e voltar a ouvir a graça nas músicas. Voltar a escrever. Acompanhar o capítulo da novela, comentar as notícias do telejornal. Ter esperança que a vida vai melhorar. Coisas que estavam tão longe, nossa! É estranho, de repente, voltar a ter isso tudo em minha vida, parece que estou de novo na vida de outra pessoa, como me sentia quando estava em altas crises no TBH.
Quero crer que esse não seja o início de um outro episódio de mania! Mesmo porque eu acabei de sair de um, acho que eles são intercalados, não são? Bom, pelo menos foi o que eu sempre li. O que eu quero registrar é que estou me sentindo feliz, embora isso seja tecnicamente impossível, dadas as atuais circunstâncias, sem dinheiro, sem emprego, sem companhia. Não sei se desses fatores básicos depende a felicidade, creio que sim, acho que seria o minimo indispensável, não sei também se a felicidade surge no coração de quem está ferrado, talvez surja, a tal capacidade do povo brasileiro de ter fé, "que não costuma faiá", de sorrir mesmo diante das maiores hecatombes. Acho que é isso! Talvez eu esteja mesmo sendo acometida por esse sentimento tão genuinamente nosso...
É bom estar feliz. Embora eu esteja desacostumada com isso, estou curtindo. Até a minha natural solidão... dia desses um amigo meu me perguntou o que eu estava fazendo para driblá-la... eu respondi que não estava driblando, porque não me sentia assim... Sou uma solteira feliz. Não estou em busca de nada, nem ansiosa por nada e ninguém, e percebo que isso é muito bom... perto do equilíbrio, palavra que eu julgava anos luz de mim. Equilíbrio talvez seja muito forte para definir! Equilíbrio requer muitos fatores, não sei se estou cumprindo todas as exigências para tanto... mas estou feliz. Desejo a todos que me leiam o que eu sinto hoje, é estranho, mas é bom, sinto-me de certa forma privilegiada, meio a tantos que sofrem...
 [para todos]
Bipolarmente deixado por Estela Carvalho às 14h30
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