Estação confusa

Meu querido psiquiatra, Dr. Marco André Mezzassalma. Homem que tem todas as respostas nos olhos, que me conhece [um pouco], que sabe, por alto, de minhas dificuldades. Se ele me diz que nunca me viu tão bem, por que duvido de suas palavras? - Estela, você está ótima, só está ansiosa por que não encontra um novo trabalho, mas isso é absolutamente normal!. Abssolutamente normal, esse é o meu diagnóstico. O TBH controlado, nervos controlados, depressão controlada, euforia controlada, e eu, descontrolada.
Por que, ainda assim?

Por que esse incômodo? Por que a sensação de inadequação? Se tudo está tão controlado assim, não haveria de existir esses vestígios estranhos, esse rastro de incomunicação, esses pés que parecem carregar bolas de ferro. Se há controle no TBH, a vida devia ser límpida, calma, radiante, a vida devia ser perfeita como é para todas as pessoas na face da terra. [é?] Qual o quê! O pesadelo está aí, dentro, parece que não vai embora, só fica um pouquinho mais retraído vez em quando, ele me dá uma folga, umas férias, e eu devia aproveitar! Porque depois da bonança vem a tempestade, porque a calmaria pressupõe a tormenta. Sim, eu devia aproveitar meu tempo de férias de TBH... mas pelo que me parece... esqueci como se aproveitam os dias, como se aproveita a vida? Como relembrar o que era antes do TBH???

Não me lembro. Parece incrível que eu guarde memórias de infância e tenha esquecido completamente como eu era antes do Transtorno Bipolar. Parece que esses dados foram apagados de algum lugar no meu cérebro, não sei equacioná-los, nem posso tomar-lhes para comparar a algo que eu tenha hoje, porque não os possuo mais. Em linhas gerais eu era feliz, acho, acho que já fui. Tinha uma vida tranquila em minha casa, com meu irmão, tinha amigos, muitos amigos no trabalho. Lembro que saíamos... sim, e era divertidíssimo. As pessoas tinham uma outra visão a meu respeito, hoje estou irreconhecível, sem face, sem características próprias, sem atributos. Hoje eu sou bem menos do que ontem, passei por um retrocesso em muitos aspectos. Sei que já não agrado tanto as pessoas. Sei que não sou mais aquela que todos queriam ter à volta. E onde ficou aquela que era eu?

Você precisa, Estela, antes de tudo, aprender a retomar algumas motivações. Aprender não, reaprender. Precisa novamente entender o que é acreditar, ir lá no dicionário e absorver o sentido exato desse verbo novo, sim, porque para mim ele é novíssimo, e olha que eu trabalho com as Letras. Você precisa ir lá no dicionário e encontrar o que é a . Monossílabo tônico, pequenininho e grande. Ler direitinho, entender, entender e entender a ponto de conseguir transpô-lo para a sua atual vivência. Não vale só ler e deixar lá, tem que transplantar. Você precisa reaprender que tudo é possível, que a vida se refaz sim, que é só ter paciência, que Deus sempre vela por nós, que há sempre uma luz no fim do túnel... toda essa sorte de fraseado barato, pertencente ao senso comum, mas que é, por vezes, nosso único auxílio para retomar as coisas.

Vamos renascer, dona Estela? 



Bipolarmente deixado por Estela Carvalho às 18h36
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Quem não tem

teto de vidro

que atire

a primeira

pedra!







Estela/inquietude.Tenho 30 anos, moro no Rio de Janeiro, sou professora de Literatura Brasileira, amo a Língua Portuguesa. Ainda não descobri porque estou no mundo, pouco acredito, tudo questiono. Desisto da vida muito rápido, sempre que ela dói. Tenho muitas limitações, e quero ser o melhor possível. Não consigo compreender a crueldade das pessoas. Minhas paixões não têm medida. Abomino grades, necessito criar.



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