M a i s   s o b r e   m i n h a   m ã e

Em continuação ao texto anterior sobre a experiência que eu tive com o confinamento da minha mãe num hospital psiquiátrico, quero registrar também o que de mais profundo pude absorver, não sobre os destratos, esses são fatos consumados, mas sobre o mundo de minha mãe. É fácil ver pessoas com distúrbios mentais morando embaixo de pontes e viadutos e dormindo ao relento, e é mais fácil ainda entender porque essas pessoas foram chegar a esse ponto. A resposta é uma profunda  rejeição por parte da família.

 

A sociedade não está pronta para conviver com os diferentes. Não vou dizer que é fácil ter um doente mental aos seus cuidados, claro que não é, lembro que minha mãe, diagnosticada com Síndrome do Pânico, causou-me turbulências tremendas, virou a minha vida, e a minha cabeça, ao contrário. Agora é fácil falar que ela estava doente, agora que tudo está bem. Mas no momento em que se passam as coisas, no dia a dia, é impossível ter cabeça para pensar em qualquer coisa nesse sentido! Já tive ímpetos de bater nela, de matar, de sumir com ela! Sim, nós somos abomináveis, eu também sou e rejeitei minha mãe. Tudo isso parte do desconhecimento que nós temos com relação aos problemas psiquiátricos. Hoje eu jamais faria isso, mas os leigos no assunto fazem sim, e muito.

 

Minha mãe tinha surtos psicóticos terríveis e alucinações diárias, a minha casa era uma eterna gritaria.  Ela via a todo tempo pessoas querendo matá-la, e eu imagino como isso deva ter sido atemorizante, dava para ver, nos olhos dela. Ela falava com tanta convicção que eu também passei a achar que essas pessoas existiam mesmo! E tive muito medo de ir parar naquele sanatório com ela, acho até que mais um pouquinho de tempo naquela situação e eu iria mesmo. Teve um dia em que ela derramou sobre toda a casa 4 latas de óleo de cozinha, para que os “matadores” não a pudessem pegar. Dormíamos com o guarda-roupa na frente da porta de entrada, pois era somente assim que ela se sentia segura e mesmo assim... eram gritos pela noite inteira. Não sei o que eu achava, porque boa parte do que eu guardo desse episódio foi esquecida por mim - um esquecimento que o cérebro promove para nos proteger – mas certos momentos estão vivos, muito vivos ainda.

 

Quando a situação chegou ao extremo, fomos procurá-la e não encontramos. Não estava fora de casa, como costumava ficar, não estava na vizinhança, nem nas ruas próximas. Numa idéia, que só pode ter sido lá de Deus, vimos, eu e o meu irmão, uma escada na parede da casa, e achamos que ela poderia ter escapado por ali. Parece coisa de filme, mas minha mãe foi pulando, de telhado em telhado, até chegar à primeira casa da esquina da minha rua, e lá ficou. E de lá saiu amordaçada numa ambulância, porque não mais podíamos fazer nada. De instituição em instituição ela ficou, saiu de um sanatório para homens e mulheres no bairro do Engenho Novo [esse ainda existe] para o Santa Juliana, e de lá saiu, como se nada tivesse acontecido! Eu já estava com toda a minha esperança nula, e imaginava que a minha vida seria aquilo, visitá-la aos domingos, levar roupas limpas e cigarros, e sair de lá com a sensação de que estavam me arrancando o fígado. Mas Deus, em sua imensa misericórdia, fez com que ela se recuperasse e hoje ela não toma nenhum medicamento sequer.

 

Claro que ainda existem seqüelas, a gente percebe. Ainda hoje, na casa dela, ela amarra um monte de latas velhas no fecho da janela da sala, para que se alguém tente entrar, ela ouça o barulho. São pequenos detalhes que nos mostram que essas experiências não acabam de vez, que sempre resta um fiapo de descontrole, que sempre resta um comportamentozinho inadequado aqui e ali. Que os distúrbios permanecem, embora infinitamente controlados. Ela fazia uso da Sertralina até pouco tempo, mas o médico deu alta, mas de vez em quando ela ainda se sente muito deprimida, coisa de família...

 

Não dá para entender porque uns são mais suscetíveis e porque outros jamais experimentam episódios como esses... Claro que rola um certo sentimento de que “tudo acontece comigo”, principalmente no meu caso, que já tive um histórico como esse, e ainda na seqüência sou acometida por processos depressivos recorrentes até o diagnóstico do Transtorno Bipolar. Mas o que podemos fazer se nós fomos escolhidos? Acho que não tem jeito não, se não tenho coragem para o suicídio... o jeito é viver, da melhor maneira que eu conseguir, e ir acumulando essas experiências... como parte do meu crescimento pessoal. Mas não tinha um crescimento menos doloroso não, hein, Deus?



Bipolarmente deixado por Estela Carvalho às 21h26
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Quem não tem

teto de vidro

que atire

a primeira

pedra!







Estela/inquietude.Tenho 30 anos, moro no Rio de Janeiro, sou professora de Literatura Brasileira, amo a Língua Portuguesa. Ainda não descobri porque estou no mundo, pouco acredito, tudo questiono. Desisto da vida muito rápido, sempre que ela dói. Tenho muitas limitações, e quero ser o melhor possível. Não consigo compreender a crueldade das pessoas. Minhas paixões não têm medida. Abomino grades, necessito criar.



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