Do lado de dentro de um manicômio

 

Eu conheço um manicômio, do lado de dentro. Nunca fui internada realmente, não que o meu psiquiatra já não o queira ter feito, tentou várias vezes inclusive, mas eu sempre disse não. Conheço um manicômio porque eu já tive a infelicidade de ver, atrás dos muros, a pessoa que eu mais amo no mundo, minha mãe. Confinada, dopada, abandonada. Porque a realidade dos manicômicos, hospícios e hospitais psiquiátricos brasileiros é deprimente: tudo continua igual como antes, como já vimos em denúncias, a sujeira, o desleixo... não pensem que isso melhorou.

Meu psiquiatra diz que melhorou. Que agora a terapia de eletrochoque é realmente um tratamento eficaz. Brigamos muito por causa disso, porque sinceramente, essa história de que tudo mudou é uma grande mentira. Os doentes continuam lá, sem atividades, no mais completo abandono, por parte dos enfermeiros, dos médicos e das famílias. Muitos doentes já poderiam ter tido alta, se tivessem para onde ir. O preconceito contra o doente mental é tão imenso que as famílias preferem esquecer os doentes num manicômio que ter que conviver com eles, realmente, é bem mais fácil, mas também monstruoso. Os doentes são um estorvo para a sociedade. Não prestam para nada. Também nós somos discriminados muitas vezes, mesmo eu que tenho minhas funções normais e posso conviver em sociedade. Quem nos garante que um dia não precisaremos de internação? E quem nos garante que teremos tratamento adequado? Infelizmente, esse tratamento adequado no Brasil está muito longe de acontecer.

Tenho como um grande amigo querido o Sr. Austregésilo Carrano Bueno. Homem inteligentíssimo e talentoso, dono de uma força que eu nunca vi em lugar nenhum. Nos anos 70 ele foi internado num hospício em Curitiba, pelos próprios pais, porque encontraram um cigarro de maconha em sua jaqueta. Ficou internado por 3 anos, sendo dopado e recebendo eletrochoques, foram 21 sessões ao todo, que ainda hoje lhe deixaram uma fissura no crânio. Ele saiu do manicômio, passou a ficar internado de dia e ir para a casa à noite. Escreveu o livro "Canto dos Malditos", em que foi baseado o premiadíssimo filme "Bicho de sete cabeças", e denunciou os maus tratos que ele recebeu quando esteve internado. Seu livro foi cassado e depois de responder processo, o livro está de volta, ainda bem. O Carrano é a prova viva de que tudo é possível nesse mundo: estava internado, dopado, sendo maltratado, abandonado, sem perspectiva alguma e saiu... para escrever sobre o que viveu. Sempre que estou no fundo do poço lembro dele e de minha mãe, que hoje também está ótima, muito melhor que eu. Mas quantos não saem de lá? Quantos continuam internados? Quantos morrem? Essas respostas o poder público nunca vai nos dar.

Não há chinelos, os doentes zanzam com os pés no chão. Não há comida, servem uma lavagem imunda que é disputada pelos doentes. Não há privacidade, minha mãe era freqüentemente atacada à noite por doentes mais exaltados. Não há respeito, quando o doente passa dos limites, dão aquelas maravilhosas injeções de “sossega-leão” sem dó nem piedade, para que os enfermeiros possam ficar à toa. Não há piedade, aplicam  uma carga de 460 volts nas têmporas do paciente até que o corpo convulsione. Fora as agressões físicas, coisas comuns que os enfermeiros fazem, um tapa aqui, um soco ali, para acalmar os mais alegrinhos. E muitos remédios. E epidemias de piolhos, porque os enfermeiros dão banho quando querem dar. Cabelos? Barbas? Esqueçam... nada disso é importante, afinal, quem vai ligar para a estética de uma horda de sem nomes? Sem cidadania? Sem direitos? Que sequer podem gritar para a sociedade que está aqui, do lado de cá das grades?

Só Deus pode olhar por essas pessoas. E nós!!! A sociedade que prefere se calar e fingir que esses hospitais não existem, a sociedade que só brada por assuntos que são do seu interesse. E, infelizmente, a dignidade dos doentes psiquiátricos não está nessas prioridades cínicas... Prioridade é o carnaval!!! O futebol!!! O Big Brother Brasil!!!

Obs.:  A sociedade acha que está à salvo, que nunca vai estar na mesma situação que os internados, mas eu digo, ninguém está a salvo de estar internado ou de ter um ente querido confinado naqueles chiqueiros! 



Bipolarmente deixado por Estela Carvalho às 00h07
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Soneto do amor fingido




 

Quem me dera esse amor fosse tudo que eu canto

Aos outros, ele parece

A mim, entretanto, não o sei

Sei só da dor, que minha mente entristece

 

Quem me dera fosse amor, o que eu canto

E que os olhos das pessoas enche

Enquanto sigo, pálido e pranto

E a dor que arde, me arrepende

 

Ah se fosse tão perfeito o amor-perfeito!

Se tivésseis mesmo tantas qualidades

E não doesse tanto no peito

 

Se eu tivesse, ah se eu tivesse

O amor que eu canto aos ventos

Seria feliz, de verdade, e não mísero fingimento.

 

 



Bipolarmente deixado por Estela Carvalho às 22h38
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Quem não tem

teto de vidro

que atire

a primeira

pedra!







Estela/inquietude.Tenho 30 anos, moro no Rio de Janeiro, sou professora de Literatura Brasileira, amo a Língua Portuguesa. Ainda não descobri porque estou no mundo, pouco acredito, tudo questiono. Desisto da vida muito rápido, sempre que ela dói. Tenho muitas limitações, e quero ser o melhor possível. Não consigo compreender a crueldade das pessoas. Minhas paixões não têm medida. Abomino grades, necessito criar.



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Rua Coronel Assunção, s/n - Saúde Rio de Janeiro Tel.: 2516.5504 (atendimento gratuito)

Casa de Saúde Saint Roman
Rua Almirante Alexandrino, 1342 Santa Teresa - Rio de Janeiro Tel.: 3861.8100 (atendimento convênios)




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