Eu preciso de remédio?

Ter Transtorno Bipolar do Humor é ter que ter coragem a qualquer preço. Além da vida fora dos padrões da normalidade, ter que nos encaixar no mundinho pré-formatado dos "normais", exercer atividades de trabalho mesmo quando a mente pede PARE, ter que ser por vezes incompreendido nas dificuldades, e tantos outros perrengues, nos fazem construir uma espécie de couraça de força. É por isso que dizem que nós somos maiores, porque crescemos na dificuldade. Belíssimo consolo esse... confesso que preferiria ser pequenina às vezes, que crescer dessa forma tão dolorida. Bom, o fato é que crescemos, crescemos e crescemos. E dentro desse crescimento, às vezes sabemos equacioná-lo bem, ou não. Tem horas que queremos discutir com os médicos, porque nos achamos muito conhecedores de Psiquiatria. De fato, nós conhecemos a Psiquiatria, a pior parte, o pior lado da Psiquiatria, o lado de quem está sofrendo. Mas isso não nos dá o direito de retrucarmos ordens médicas, pelo menos não quando elas são bem administradas.
Remédio é remédio em qualquer parte. Se se tem um resfriado, vitamina C. Se se tem uma cólica, Atroveran. Se se tem tosse, Aerolin. Se se tem dor de cabeça, Doril. Se se tem Transtorno Bipolar do Humor, o Dilvaproato de Sódio, a Carbamazepina ou o Carbolítio. E ponto final. Se você tem THB, trate de se acostumar com a idéia da presença frequente desses medicamentos em sua vida, os estabilizadores de humor. Eles atuam no controle das duas diferentes faces do Transtorno, os episódios maníacos (de euforia) e depressivos. Sem eles o sobe-desce do humor é acentuado, em intervalos cada vez menores, até que seja impossível o convívio em sociedade. Mesma coisa se aplica se você é um paciente deprimido. Trate de se acostumar com a idéia de medicamentos como o Tryptanol, Anafranil, Nortec, Prozac, Zoloft entre outros, porque são eles os antidepressivos que controlarão as crises tão indesejáveis de tristeza aguda.
Sei que pode parecer péssimo saber que se é obrigada a usar essas drogas. E quanta bobagem fala-se por aí, que esses tipos de medicamentos causam dependência química, que nunca mais vamos conseguir deixá-los, que precisaremos de doses cada vez maiores e que isso será uma constante, quanta abobrinha. A nova geração de medicamentos, os laboratórios têm investido horrores nisso, até porque as doenças psiquiátricas são o fim de uma humanidade que vive entregue ao stress, cobranças e dificuldades das mais diversas, já não mais causam dependência alguma, muitos deles já trabalham com uma quantidade pequena de efeitos colaterais, quase nulos e perfeitamente superáveis. Agora os nossos médicos preferem manter o tratamento por anos, com doses pequenas de medicamentos, que interrompê-los e correr o risco de uma recaída. Eu particularmente acho ótimo, ter a segurança de que eu vou estar sempre bem, tendo que tomar doses pequenas de Carbolítio. Claro que os medicamentos nem sempre foram tão bons assim! Nós é que somos pessoas de sorte, antigamente os tratamentos eram em hospícios, em chiqueiros psiquiátricos, à base de remédios exclusivamente feitos para dopar, sem contar nos eletrochoques... Enfim... nossa geração foi contemplada com uma leva de bons medicamentos, com efeitos colaterais minimizados.
E mesmo sabendo que os medicamentos são ótimos, nós nos recusamos a usá-los! E queremos bradar ao mundo a nossa força e coragem, o nosso ânimo, nossa decisão de não mais fazer parte do grupo de pessoas que usam antidepressivos ou estabilizadores do humor. Ah, porque chega uma hora que nós somos maiores!!! Hora de dar um basta aos medicamentos! ERRADO!!! É uma tremenda burrice agir com esses ímpetos! Não existe tratamento seguro longe dos medicamentos, é para isso que eles existem! Eles fazem parte de descobertas farmacológicas que podem nos ajudar quando a maré não está pra peixe, quando os nossos neurotransmissores resolvem entrar em greve por tempo indeterminado, quando a nossa mente nos atemoriza. E se eles existem, pelo amor de Deus, porque não usar? Por que ficar achando que somos menores, que somos incapazes, só porque precisamos de determinados medicamentos? Isso é um absurdo... não somos menores, somos é felizardos! Tanta gente querendo usar medicação para melhorar e não têm dinheiro para comprar... pessoas que acabam nos hospícios com os seus problemas agravados pelo não-tratamento... pessoas que têm danos cerebrais irreversíveis! E nós podemos, e nos recusamos? Não é justo que façamos isso.
Melhor seria não precisar. Mas se precisamos, e se podemos adquiri-los, não há melhor maneira de curar-se. Um bom tratamento médico, com substâncias adequadas ao seu caso, aliadas a diminuição de fatores estressores e conversa psicanalítica, muita conversa, pode nos ajudar a encontrar o caminho para uma vida mais tranquila, mesmo sabendo, e não ignorando, que somos portadores de problemas psiquiátricos. Medicinas alternativas são bem-vindas, mas não adianta imaginar que de repente vamos tratar problemas de ordem psíquica exclusivamente com essas práticas! Uma vida regrada, com uso de produtos naturais, uma boa dieta alimentar, são fatores que só contribuirão para a melhora do paciente mas não adianta, só isso não é o suficiente, se fosse não existiriam os psiquiatras, e muito menos os remédios alopáticos. Florais de Bach também são fantásticos, potentes auxiliadores, eu conheço bem, já os estudei há tempos. Só que eles também não são suficientes! Só quem segura a nossa onda é o psiquiatra... os medicamentos e a nossa fé em Deus, tudo o mais é balela...
Bipolarmente deixado por Estela Carvalho às 14h09
[ ]
[ espalhe esta mensagem ]
|
O que pensar quando se faz ... 30 anos?
14 de setembro de 2004, hoje estou ficando mais velha. Se eu fosse fazer um breve balanço, diria que tive mais dificuldades e desencontros que acertos. Isso era um bom motivo para talvez nem comemorar a puta dificuldade que foi chegar até aqui, mas apesar do saldo aparentemente negativo, tenho acumulado coisas valiosas, grandes amigos, afetos, saudades, inteligência e um certo jogo de cintura que eu não tinha antes. Em compensação, a crueldade da vida me dói mais, o arrastar dos dias me leva com mais facilidade, os comentários sarcásticos de quem não compreende as agruras alheias, a pobreza e as injustiças doem, muito mais que antes. E a conseqüência natural de ter vivido tempos difíceis vem hoje, com meus problemas psiquiátricos, afinal, ninguém passa ileso a grandes tormentas.
Aquela irresponsabilidade boa da juventude... essa sim eu queria recuperar. Transformei-me numa máquina de preocupações e a minha mente, um desenrolar diário de problemáticas. Se antes eu não admitia erros, hoje não admito nem “acertos mais ou menos”, porque exijo de mim a perfeição. Essa auto-crítica que me acompanhou todo o tempo parece em maior atividade agora, claro que isso é péssimo, mas... como deixar para trás as nossas características mais peculiares? Como não exigir resultados perfeitos? Como encerrar as minhas cobranças internas? Bem que eu queria essas respostas.
A coisa boa disto tudo é que eu estou indo. Mesmo tendo pensado inúmeras vezes em parar pelo caminho, pouco a pouco a vida vai tomando corpo, e meus 30 anos estão aí como prova dessa continuidade. Seria precipitado dizer que eu vou alcançar tudo o que eu almejo, porque depois do Transtorno Bipolar, aprendi a não fazer tantos planos, a viver um dia de cada vez e ir engolindo as coisas com mais calma... só Deus e eu sabemos como é difícil agir desta forma, porque eu adoraria planejar tudo. Como diz a literatura psiquiátrica, tenho que dividir meus grandes objetivos em metas menores, ir resolvendo uma a uma e só então partir para as próximas. Se o Transtorno trouxe lições, posso dizer que essa foi uma delas.
Então lá vou eu com as minhas mini metas! Teimando em permanecer num mundo que não está pronto para aceitar minhas limitações. Espero um dia que o paciente psiquiátrico possa ser tratado com mais respeito, afinal, ninguém está livre de ser acorrentado por sua própria mente, e que ter Transtorno Bipolar não seja motivo para encerrar atividades e fechar as portas, mas sim para a tentativa, dura, cansativa, angustiante e agressiva de continuar aqui, tentando ser normal, tentando agir normal, tentando prosseguir, respeitando os limites da mente e do corpo, crescendo da maneira mais cruel que pode existir, na eterna dificuldade.
Mas deixai-me esquecer essas agruras por hoje, só por hoje, afinal... é dia de comemorar!
Um Feliz aniversário para mim!!!

Bipolarmente deixado por Estela Carvalho às 00h10
[ ]
[ espalhe esta mensagem ]
|
S h e i l i n h a !

Para os amigos que quiserem conhecer, meu cãozinho tem um fotoblog!
http://stellaeller.fotoblog.uol.com.br

Bipolarmente deixado por Estela Carvalho às 15h52
[ ]
[ espalhe esta mensagem ]
|
9,5 !!!

Depois de ter chorado as pitangas, comido os cabelos pelo bulbo, roído todas as unhas, inclusive as do pé, e dois mil ataques de perereca por segundo, finalmente acabou o sufoco: a apresentação de minha dissertação monográfica foi muito boa e a banca foi só elogios, e olha que eu peguei a pior banca, os professores mais cricris do mundo. Meu orientador ficou pau da vida, para ele meu trabalho era 10, mas os outros componentes da banca era 9,5, e ele, como minoria, teve que acatar. Para mim, pouco importa o 9,5 ou 10, estou pra lá de satisfeita. O que valeu mesmo, o que segurou a minha onda, além das companhias inseparáveis Beatriz e Jaqueline, foi a força que eu tirei lá de cima, de Deus, em minhas orações, no banho já me preparando para sair. Lembrei da minha muito querida Santa Rita de Cássia, que sempre me iluminou, e novamente não me faltou nos momentos de grande tensão.
Na leitura da ata de resolução da banca, um filme inteiro passou por minha mente, dificuldades, limitações, dias a olhar para a monografia e chorar em cima das páginas, pensando que eu jamais seria capaz de finalizar um trabalho como esse, com a qualidade que eu queria, em plena crise de Transtorno Bipolar. Desisti mil vezes, penei, sofri, desisti de novo e recomecei 200 vezes, perdida, com medo, insegura, descontente e desconfortável por ter uma tarefa tão árdua em minhas mãos, e não estar psicologicamente preparada para ela. Sei que isso vai se repetir outras vezes, agora no Mestrado, e espero estar melhor para desenvolver minhas potencialidades como elas são, sem ser prejudicada pelo fator saúde. Sei que eu posso muitas coisas, mas em crise a gente não sabe absolutamente nada, duvida de tudo e desanima, mas a idéia é mesmo essa, teimar o tempo inteiro, ir em frente custe o que custar e passar por cima das adversidades como um trator.
Vitória? Especialista em Língua Portuguesa é o que eu sou, oficialmente. Espero fazer juz ao título que me foi concedido, tratando das letras com o mesmo carinho que elas sempre me dispensaram. Se eu não sabia que chegaria até tanto, aqui está a prova de que é possível sempre, quando se esquece de tudo e trilha-se o caminho, difícil e tortuoso, é bem verdade, mas absolutamente gratificante. E no fim aí está o prêmio, muitos elogios e um trabalho que foi aprovado na íntegra, sem nenhuma restrição pela banca examinadora.
FELIZ! Se há muito eu não me sentia verdadeiramente assim, hoje posso dizer que estou, muito. Só tenho a agradecer a Deus por me amparar, por não ter me deixado ficar pelo caminho, amargando a tristeza de não ter tido a coragem de tentar. Eu tentei, e apesar de tudo, esse tal de Transtorno não conseguiu me deter, nem vai conseguir, porque com ele ou sem ele, o que eu tenho que fazer será feito, independente dos leões que eu tiver que matar pelo caminho. Ah, uma foto que tiramos, de recordação! :-) Sempre bom é eternizar os momentos de grandes conquistas!

[Da esquerda para a direita, Alexandra, companheira de sala, Dr. Carlos Alexandre, meu orientador, Eu e minha grande amiga Jaqueline Borges]
Bipolarmente deixado por Estela Carvalho às 02h06
[ ]
[ espalhe esta mensagem ]
|
|

|
|
|