Lutando contra a inércia

Bem que o meu psiquiatra avisou que seria difícil ter coragem para se exercitar. Assim que se deixa um período depressivo, é necessário, estritamente necessário, retomar as atividades físicas para oxigenar o cérebro. Não é novidade para ninguém, o exercício físico é um potente aliado para que o nosso cérebro volte a funcionar com maestria, pelo que me parece, não somente os músculos precisam de uma forcinha, mas nossa cabeça também. Entretanto, entretanto... é difícil demais ir para a academia e fazer exercícios.

Quando eu ainda estava em crise, tive brigas homéricas com o Marco, que insistia em me enfiar numa academia e eu, necas. Além da preguiça extrema, lembro de ficar relutando até a hora de calçar o tênis e botar o pé na rua, sempre arrumava várias desculpas, das mais esfarrapadas possíveis para não ir. Inconscientemente eu me atrasava de propósito, chegava tarde do trabalho para então poder dizer que "não vou porque não dá tempo", no fundo eu queria qualquer coisa, menos aquela música, menos aquela gente, menos ter que mexer o corpo. Só que quando chegava por lá, distraía tanto que os exercícios eram ótimos, quer dizer, isso quando não estava em crise meeesmo, porque nesses dias era impraticável, claro, mas no geral sempre acabava ficando mais feliz, mais confiante e saía da academia com outro astral.

Isso tudo tem uma explicação bioquímica que eu nem me atrevo a dizer nada, nem entendo disso, mas alguma coisa com relação à adrenalina e a serotonina, substâncias que ficam em baixas extremas quando se está deprimido. Ainda hoje vivo esse problema, sei que tenho que me exercitar porque a Risperidona aumenta o peso do paciente, aliás, muitos antidepressivos e antipsicóticos produzem esse péssimo efeito, e se eu não me cuidar, viro uma bola, já que tenho tendência a ganhar peso. Só que... uma coisa é o que a gente sabe que tem que fazer, outra coisa é olhar para o relógio e vestir a indumentária de guerra, calca de lycra, shortinho, camisetinha... e ir para o martírio em que a tal academia se transforma na vida da gente.

Eu realmente não gostaria de ter essa obrigação, mesmo porque eu detesto obrigações de qualquer tipo, mas tenho que assumir, tirando o desconforto inicial, e se conseguirmos realmente superar a vontade imensa de fazer absolutamente nada, a academia é um ótimo lugar, dá outro gás, pôe as idéias para andar, sem contar que podemos até fazer amizades novas [nessa parte eu sempre demoro um bocado porque sou tímida], difícil mesmo é chegar até ela. Ainda tenho muita dificuldade! Ainda sofro com a vontade de ficar em casa. O problema nem é ficar em casa, o problema maior é a nossa cabeça como fica... pensando mil bobagens... melhor mesmo é lutar contra a inércia e ganhar a academia. Por mais que isso pareça, por vezes, uma tarefa de Hércules...



Bipolarmente deixado por Estela Carvalho às 22h06
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Um café. Um cigarro. Um poema de Drummond. Um olhar para as estrelas. Um bombom. Um livro. Uma praça. Um sorriso. Um amor. Um cachorro meigo na rua. Um poema que não terminei. Uma vitória alcançada, um prêmio. Um elogio carinhoso. Uma palavra de conforto. Uma mão amiga, um conselho. Uma afeição. Um espelho, uma roupa nova, uma escada para o céu. Um convite. Um diálogo. Uma mãe. Um brinco. Uma camiseta. Um tênis. Uma mão e uma luva. Um destino, uma saudade. Uma estrada nova. Uma porta, uma janela. Uma cama, e travesseiros. Uma ponte e um rio. Uma casa, um quarto, um lugar. Um cd e uma música ao longe. Uma igreja. Deus. Um grito, uma risada. Uma faca e um queijo. Uma dobradiça, um armário. Anotações. Um suco, um gelo, o calor. Uma almofada colorida de crochê. Um passo, uma dança. Uma luz, uma idéia. Um perfume ao vento que voa, nuvens. Uma chuva. A água, as plantas, a terra. Uma praia. Um entardecer, uma brisa nos cabelos. Um sorvete e uma calda de chocolate. Uma agulha, passa a linha. Uma sorte. Porta-retratos. Uma bíblia. Uma mesa, uma tesoura para picotar. Um chinelo, um descanso, uma liberdade para criar. Um pijama. Uma pérola. Uma boneca. Um dicionário, um salto alto. Um amigo, um violão, outras cores. uma torneira. Brincar de massinha. Chupar pirulito. Cantar, sem perder as horas. Uma água do banho, um sabonete. A pele. O corpo. A mente.

A vida nos dá esses presentes, todos os dias.
Por que somos teimosos, e insistimos em recusar?



Bipolarmente deixado por Estela Carvalho às 18h24
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Quem não tem

teto de vidro

que atire

a primeira

pedra!







Estela/inquietude.Tenho 30 anos, moro no Rio de Janeiro, sou professora de Literatura Brasileira, amo a Língua Portuguesa. Ainda não descobri porque estou no mundo, pouco acredito, tudo questiono. Desisto da vida muito rápido, sempre que ela dói. Tenho muitas limitações, e quero ser o melhor possível. Não consigo compreender a crueldade das pessoas. Minhas paixões não têm medida. Abomino grades, necessito criar.



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