Cena lastimável de consultório



Cena 1

- Mas Estela, você tem alguma colocação a fazer, desde o seu último exame periódico?
- Bom Dra., eu queria registrar uma alteração quanto ao tratamento psiquiátrico.
- Ah, sim, diz aqui na sua ficha que você tem quadro depressivo, e que faz uso do Tryptanol, certo?
[pausa para Estela com cara de enfastio]


Cena 2

- Pois é Dra., não estou mais fazendo uso do Tryptanol, inclusive também não tenho só quadro depressivo e...
- Ah não? Qual o remédio você usa agora?
- Bom, o meu diagnóstico modificou, do quadro depressivo para Transtorno Bipolar do Humor e...
- Calma aí, fala devagar. Transtorno do quê?
[Estela com cara de pânico]


Cena 3

- Bipolar do Humor.
- Ahn... e qual o remédio?
- Bom, na verdade são três: a Sertralina 25g, antidepressivo, o Carbolítium, estabiizador do humor e a Risperidona, um anti-psicótico. Eles atuam no que se chama de alteração do humor, entre a depressão e a mania.
- Ahn... você tem mania! Mas você faz o quê? Você varre a casa toda hora, penteia os cabelos, toma banho toda hora?
[Estela com expressão de Meu Deus do Céu]


Cena 4

- Não Dra., nada disso...
- Ah não? Ah, mas porque as pessoas que têm mania desenvolvem esses hábitos, né?
- Olha Dra., acho que a senhora está confundindo as coisas... Mania, para a psiquiatria, é o estado de euforia que geralmente precede um episódio depressivo...
- Ahn, mas no seu caso então não teve mania de fazer nada, né? Só ficou eufórica mesmo?
[Estela puta!]

 


 

Considerações:

Na cadeira de Medicina há diversas especialidades.

Como quando se se escolhe um curso técnico do Ensino Médio, é necessário cursar no mínimo, disciplinas consideradas elementares, a fim de que o profissional, ao término de sua qualificação, possa ter noções gerais sobre outros assuntos dentro da mesma cadeira, não como um especialista, claro, pois é para as questões específicas que existem as especializações, mas num padrão já completamente diferenciado do leigo.

A medicina traz outra peculiaridade: as questões relacionadas ao corpo humano estão intimamente ligadas umas às outras, não é como cursar Secretariado, no ensino técnico anteriormente mencionado, e não estudar Química. Para uma secretária, a composição dos elementos dispostos na tabela periódica é tão necessário quanto dois sapatos para um perneta. Agora para um médico, isso severamente não se aplica, visto que os sintomas, as conseqüências são interligadas e refletem, necessariamente, uns nos outros.

E que raios faz a tal Medicina do Trabalho? Entende de tendinite? Até meu irmão sabe de tendinite! E vem essa senhora me falar esse despaupério total e inadmissível para uma profissional da área médica, confundindo mania de fazer alguma coisa, com o termo mania dentro da psiquiatria, que não têm rigorosamente nada a ver uma coisa com a outra. E um profissional de Letras, área de humanas, dando explicações elementares sobre coisas que aquela senhora, como médica, deveria saber pelo menos em linhas gerais. É repugnante!

Sei que um profissional não pode caracterizar uma comunidade médica inteira, e ainda bem, porque se assim o fosse, estaríamos todos mortos. Mas jã não bastava ter que conviver com a falta de informação no que se refere à Hepatite C, que é total. Agora uma coisa boba dessa, que era só olhar no dicionário? É assim que as universidades formam os profissionais do futuro. Dra. Benedita A. de Vasconcelos: quando virem uma plaquinha com esse nome, passem longe.



Bipolarmente deixado por Estela Carvalho às 16h21
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Quem não tem

teto de vidro

que atire

a primeira

pedra!







Estela/inquietude.Tenho 30 anos, moro no Rio de Janeiro, sou professora de Literatura Brasileira, amo a Língua Portuguesa. Ainda não descobri porque estou no mundo, pouco acredito, tudo questiono. Desisto da vida muito rápido, sempre que ela dói. Tenho muitas limitações, e quero ser o melhor possível. Não consigo compreender a crueldade das pessoas. Minhas paixões não têm medida. Abomino grades, necessito criar.



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